Sábado, 11 de Julho de 2009

O REI E O SÁBIO

Cresci fisicamente mas as estórias e fábulas continuam a me tocar o coração, semelhante ao que acontecia na infância. Quero que seja sempre assim, pois aprendo muitas lições com elas. Esta, a seguir, é uma especial, que guardo com muito carinho em minha "coleção de palavras."

Gilvan Almeida

O REI E O SÁBIO

Havia um rei que, apesar de ser extremamente rico, tinha a fama de ser um grande doador, desapegado da sua riqueza. Quanto mais doava para cuidar dos seus súditos, tanto mais os cofres do seu fabuloso palácio enchiam.
Um dia, um sábio que estava passando por muitas dificuldades procurou o rei para descobrir seu segredo. Ele pensava:
- Como o rei, que não é versado nas sagradas escrituras e não leva uma vida de penitência e renúncia, pode viver cercado por tantas riquezas materiais e ainda assim não ficar “contaminado” por elas? Eu, que renunciei ao mundo e conheço todos os Vedas (livros sagrados), tenho tantos problemas, e ele é virtuoso e amado por todos.
Ao chegar na frente do rei, perguntou-lhe qual era o segredo de viver daquela forma. O rei respondeu:
- Acenda uma lamparina e passe por todas as dependências do palácio, assim o Senhor vai descobrir meu segredo. Porém, há uma condição: se o Senhor deixar que a chama se apague, cairá morto.
Desse modo, o sábio visitou todas as salas e duas horas depois voltou para o rei, que lhe perguntou:
- O Senhor viu toda a minha riqueza?
Ainda tremendo da experiência, o sábio respondeu:
- Sua majestade, não vi absolutamente nada. Eu estava tão preocupado em manter a chama acesa que não notei nada.
Com o olhar cheio de misericórdia, o rei falou do seu segredo:
- Assim, Senhor sábio, eu vivo. Tenho tanta atenção em manter a chama da minha alma acesa, que embora tenha tantas riquezas, elas não me afetam. Tenho a consciência de que sou eu que preciso iluminar meu mundo com minha presença, e não o contrário.

Esta história ilustra dois fatos:
· A virtude ou defeito não está em ter as coisas, mas em como são utilizadas.
· O verdadeiro esforço se limita em manter a consciência interior espiritualmente acesa, e não em lutar contra supostas tentações e ameaças.

Sábado, 4 de Julho de 2009

Indicação de livro: A casa do delírio

A casa do delírio
Reportagem no Manicômio Judiciário de Franco da Rocha
Autor: Douglas Tavolaro
Editora: Senac-São Paulo

Encontrei este livro na Bienal da Floresta. Leitura importante para todos os que procuram enxergar o mundo além do próprio umbigo e também para os que vivem em um mundo bonito e perfumado, onde tudo dá certo e todos são aparentemente felizes, que vivem “... de frente para o mar e de costas para o Brasil...” conforme já nos disse um poeta. Como diz o autor, o livro é “... uma aventura pelo mundo da razão perdida...”. Considerei também um mergulho no inferno dos maiores males que assolam a sociedade brasileira: miséria, abandono, injustiça, fome, exploração, desemprego, doenças, corrupção... Lá no manicômio estão alguns frutos deste sistema político, econômico e social em que vivemos. Além do levantamento histórico da instituição e dos crimes que cometeram alguns internos, o autor nos mostra também o lado humano, familiar e social, dos personagens entrevistados, e o que vem sendo feito institucionalmente no sentido de reabilitar a dignidade perdida. Tocou-me profundamente, quando ele descreve uma cela onde eram colocados os internos mais perigosos, violentos e em surto psicótico, em que havia diversas palavras e símbolos escritos e desenhados nas paredes, aparentemente sem sentido, mas uma frase ele conseguiu entender, e ela dizia assim: “Quando eu morrer, que não seja só de tédio”. Quantos de nós, que nos consideramos normais, temos esta lucidez de ver quando a nossa vida está um tédio, ou de reconhecer que a vida está um tédio e ver que é possível e preciso fazer algo para transformá-la? Com tudo o que vivenciei e aprendi na leitura deste livro, confirmo, mais uma vez, o que alguém disse: não somos mais a mesma pessoa após a leitura de um livro.

Gilvan Almeida

Escrito na contra-capa do livro:

Inaugurado no último dia de 1933, o Manicômio Judiciário de Franco da Rocha continua sendo o maior abrigo de doentes mentais criminosos do Brasil. Foi considerado nos anos 1950 um dos mais importantes hospitais-presídios da América Latina, na vanguarda dos estudos psiquiátricos, mas nos anos 1960 tornou-se “depósito de loucos” superlotado, com os horrores dessa situação: fome, sujeira, doença, violência. Hoje, com a dignidade em recuperação, luta para livrar-se do estigma de ter sido “um inferno onde quem entra só sai morto”.
Conta-se aqui a história do manicômio e a de alguns de seus personagens marcantes; mostra a “rotina insana” conforme a captou o olhar atento e a sensibilidade do autor. Diversos fatos narrados causam o impacto de uma dura realidade, sem que se perca sua dimensão humana.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Socorro a bancos

Vergonhosa esta matéria, que revela um pouco da verdadeira face do capitalismo: concentração cada vez maior das riquezas nas mãos de poucos, a socialização dos prejuízos e a distribuição da miséria para a grande maioria da humanidade. Quando vejo o governo brasileiro ser elogiado pelo capital internacional entendo que fica evidente que está acontecendo em nosso país o que Obama e companhia esperam: lucro fácil com pouquíssimo investimento, política subserviente de subsídios estatais, pouco compromisso das transnacionais com o trabalhador brasileiro e o meio ambiente, e tantas outras formas modernas de exploração. Quando votei em Lula já não era mais ingênuo politicamente a ponto de acreditar que ele faria a grande revolução política, econômica e social que nosso povo espera há séculos. Sei, no entanto, que ele faz o governo possível e permitido internacionalmente, em mais um dos países submissos à ditadura econômica mundial.

Gilvan Almeida

Socorro a bancos em 1 ano supera ajuda a países pobres em 50, diz ONU.
BBC Brasil - 24/06/2009

A indústria financeira internacional recebeu no último ano quase dez vezes mais dinheiro público em ajuda do que todos os países pobres em meio século, segundo aponta um relatório divulgado nesta quarta-feira pela Campanha da ONU pelas Metas do Milênio.

Segundo a organização, que promove o cumprimento das metas das Nações Unidas para o combate à pobreza no mundo, os países em desenvolvimento receberam em 49 anos o equivalente a US$ 2 trilhões em doações de países ricos.
Apenas no último ano, os bancos e outras instituições financeiras ameaçadas pela crise global receberam US$ 18 trilhões em ajuda pública.

A divulgação do relatório coincide com o início de uma conferência entre países ricos e pobres na sede da ONU, em Nova York, para discutir o impacto da pior crise econômica mundial desde os anos 1930.

O encontro, que acontece até o dia 26, tem como principal objetivo "identificar as respostas de emergência para mitigar o impacto da crise em longo prazo", segundo a convocação das Nações Unidas.

Um dos principais desafios da reunião será conseguir um compromisso que permita unir países industrializados e em desenvolvimento para definir uma nova estrutura financeira mundial, prestando atenção especial às populações mais vulneráveis.

Vontade política

O relatório da Campanha pelas Metas do Milênio argumenta que a destinação de dinheiro ao desenvolvimento dos países mais pobres não é uma questão de falta de recursos, mas sim de vontade política.

"Sempre digo que se você fizer uma promessa e não cumprir, é quase um pecado, mas se fizer uma promessa a pessoas pobres e não cumprir, então é praticamente um crime", disse à BBC o diretor da Campanha pelas Metas do Milênio, Salil Shetty.

"O que é ainda mais paradoxal é que esses compromissos (firmados pelos países ricos para ajudar os pobres) são voluntários. Ninguém os obriga a firmá-los, mas logo eles são renegados", lamentou.

"O que pedimos de verdade é que nas próximas reuniões, na ONU nesta semana, e na cúpula do G-8 (em julho), os países ricos apresentem uma agenda clara para cumprir com as promessas que fizeram", disse Shetty.

O relatório da organização observa ainda que a crise mundial piorará a situação dos países mais pobres. Na última semana, a FAO (Organização para a Agricultura e Alimentação) afirmou que a crise deixará 1 bilhão de pessoas em todo o mundo passando fome.

Para Shetty, é importante que os países pobres também participem de qualquer discussão sobre a crise financeira global.

"Hoje eles não têm nenhuma voz nas principais instituições financeiras. Enquanto não participarem da tomada de decisões, as coisas nunca vão mudar", afirmou.

Sábado, 20 de Junho de 2009

Matéria prima 1

Alguém há de perguntar: por que em vez das alegrias da vida ele escreve sobre tristezas, dramas existenciais, dores, separações e sofrimentos? Explico: Minha matéria prima é o sentimento e as relações humanas, a vida comum e cotidiana das pessoas. Escrevo sobre o que sinto, o que ouço e vejo no olhar, nos gestos e nas palavras das pessoas, e o que mais encontro são as tristezas e os sofrimentos, construindo a dura existência da maioria. Só é olharmos com mais atenção para o nosso interior e ao nosso redor que veremos que a vida não é um mar de rosas. Com muita luta podemos viver momentos de alegria e de tranqüilidade, mas grande parte do tempo estamos mesmo é vivenciando os dramas e os conflitos da vida, sejam os nossos, sejam os dos outros. Nem por isso entrego-me ao pessimismo e ao desânimo, e persisto na peleja de ser feliz, apesar das dores. E aqui está uma das chaves para se viver bem: ser feliz apesar das dores, e isso é o que considero um dos grandes segredos de uma vida bem vivida, pois não dá para querer ser feliz só quando não tiver mais nenhum problema. Se assim pensarmos é sujeito nunca sermos. É preciso o cultivo da sábia entrega do coração para o momento presente, e viver intensamente cada fagulha de felicidade que nos aparece.

Gilvan Almeida

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Quem sou eu?

Aparentemente fácil de ser respondida, a pergunta Quem sou eu? é fundamental para quem deseja caminhar pelas trilhas do autoconhecimento. Cada ser humano é múltiplo em comportamentos e, dependendo do ambiente em que está - família, trabalho, lazer, religião, a maioria imita a estratégia do camaleão, que adapta a sua cor ao meio ambiente. Assim acontece porque a convivência humana não permite a autenticidade plena, cada um mostrando o que realmente é. Ainda precisamos das “defesas camaleônicas”, máscaras de convivência, quase sempre frutos dos mecanismos de sobrevivência psicológica e emocional que fomos obrigados a desenvolver desde a infância, frente às imposições que as normas sociais exigem. No entanto, conforme o amadurecimento e a busca consciente, um dia esta multiplicidade de formas de ser se tornará Unidade, quando então cada um terá um só comportamento onde quer que esteja. Externamente sou um indivíduo, igual a todos os outros, e, ao mesmo tempo, interiormente um exemplar único e tão pouco conhecido por mim mesmo. Eu não sei, por exemplo, das minhas reações frente a determinados acontecimentos que ainda não vivi. Compreendo que eu não sou só nome, profissão, estado civil e sexo, filiação, naturalidade e nacionalidade. Sou também o que tenho; o que como, o que penso e o que sinto; eu sou o que gosto e o que não gosto; sou as minhas aspirações e preferências; as minhas fragilidades e também o que já consigo ser forte. Cada uma destas características diz exatamente de mim, da minha individualidade, da essência, portanto revelam-me, e quanto mais eu as conheço, mais sei quem sou. Lá no fundo de si mesmo cada um é essencialmente coração, sentimentos, memórias, que gradualmente, e de acordo com a busca pessoal, podem ser conhecidos, transformados, lapidados, na busca de que, um dia, sejamos plenos de paz, equilíbrio, harmonia e amor.
Gilvan Almeida

Domingo, 31 de Maio de 2009

Prêmio Loucos pela Diversidade

Conheci o Dr. Paulo Amarante na primeira aula que tive na Especialização em Saúde Mental, promovida pela Universidade Federal do Acre, em 2005. Forte batalhador pela implantação da Reforma Psiquiátrica em nosso país, considero que ele e a Dra. Terezinha Freitas (UFAC) foram fundamentais em minha sensibilização para o trabalho que atualmente faço na área de Saúde Mental. Compartilho estas informações, no sentido de fazer crescer o conhecimento público sobre este universo tão estigmatizado e segregado socialmente.

Gilvan Almeida

Pesquisador fala da primeira edição do Prêmio Loucos pela Diversidade - 29/05/009

Uma parceria entre a Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (MinC) e o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (Laps) da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP)/Fiocruz deu início ao Projeto 'Loucos pela Diversidade', que visa estimular a produção artístico-cultural de pessoas em sofrimento psíquico. Uma das medidas resultantes dessa cooperação foi o lançamento, em maio de 2009, do 'Prêmio Loucos pela Diversidade'.
O pesquisador da ENSP e coordenador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial conversou com o Informe ENSP e fez um balanço sobre o projeto, falou da primeira edição do prêmio e contou como anda o movimento pela luta antimanicomial no país.

Informe ENSP: O que é o projeto 'Loucos pela Diversidade'? Que balanço é possível fazer dele?

Paulo Amarante: O Projeto 'Loucos pela Diversidade' nasceu de uma cooperação entre a Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (MinC) e o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (Laps) da ENSP/Fiocruz para estimular a produção artístico-cultural de pessoas em sofrimento psíquico. A primeira medida foi a convocação de uma oficina, realizada aqui na ENSP em agosto de 2007, para a qual foram convidadas todas as pessoas que participam de projetos culturais no campo da saúde mental, seguindo uma tradição iniciada na gestão do ministro Gilberto Gil, que é a de envolver os sujeitos políticos como protagonistas na formulação e gestão das políticas que lhes dizem respeito.
O balanço é extremamente positivo. A partir do projeto 'Loucos pela Diversidade', foi possível viabilizar a realização de várias atividades culturais em vários eventos de saúde, como no 'II Fórum Internacional de Saúde Coletiva, Saúde Mental e Direitos Humanos', em maio do ano passado, no Rio de Janeiro, no 'Congresso Brasileiro e Mundial de Epidemiologia' da Abrasco, em Porto Alegre, no 'I Congresso Brasileiro de Saúde Mental', em dezembro, em Florianópolis, e, já neste ano, no 'Congresso Internacional de Saúde Mental e Reformas Psiquiátricas' em Salvador.


Informe ENSP: Uma das primeiras iniciativas concretas desse projeto é esse edital ao 'Prêmio Loucos pela Diversidade'? O que é o Prêmio e a quem se destina?

Paulo Amarante: A oficina deu origem a uma série de propostas para o fomento, difusão e preservação dos trabalhos realizados neste campo. Uma dessas propostas foi a realização de um edital de prêmios para estimular os projetos existentes e desencadear novos projetos. Poderão concorrer pessoas ou grupos de qualquer área da arte e cultura, desde que o trabalho artístico seja desenvolvido, pelo menos em parte, por pessoas em sofrimento mental. Poderão participar pessoas ou grupos avulsos ou ligados a instituições ou organizações não governamentais.

Informe ENSP: Ao todo, quantos projetos serão contemplados, e qual é o valor total dos prêmios?

Paulo Amarante: O edital concederá 55 prêmios, inclusive com previsão de critérios de regionalização para que todas as regiões do país tenham possibilidade de serem contempladas. Serão destinados 7 (sete) prêmios paras as iniciativas ligadas a instituições públicas, 8 (oito) prêmios para iniciativas de organizações não governamentais, 20 (vinte) para grupos autônomos e 20 (vinte) para pessoas físicas. Os prêmios para grupos serão de R$ 15 mil, e os de pessoas físicas R$ 7,5 mil. Os prêmios serão pagos com recursos da Caixa Econômica Federal; um apoio fundamental e que abre muitas perspectivas políticas para a questão da inclusão social das pessoas em sofrimento mental. Acreditamos que essa iniciativa da Caixa venha a estimular outras instituições a abrirem seus financiamentos para projetos sociais desta natureza.

Informe ENSP: O Prêmio é uma iniciativa do Laps/ENSP/Fiocruz e o MinC. Qual é a perspectiva de vocês em relação aos trabalhos a serem inscritos?

Paulo Amarante: A idéia do prêmio surgiu na Oficina, com a participação das pessoas diretamente envolvidas nos projetos pioneiros dessa área em todo o Brasil, como disse anteriormente. E a decisão de lançar o edital marcou o início de uma política absolutamente inovadora, ousada, revolucionária, de reconhecer a produção artístico-cultural das pessoas em sofrimento mental e criar fontes de apoio, dar visibilidade social etc., com recursos provenientes da cultura, ou a partir da mediação da cultura, como foi o caso da Caixa. Não se trata mais de colocar algum recurso para estimular um trabalho terapêutico através da arte, mas sim de propiciar arte, de propiciar cultura. Por isso a expectativa é boa por enquanto, mas será excelente nas próximas versões do edital, nas próximas chamadas que, esperamos, ocorram regularmente a partir de agora.

Informe ENSP: Por que homenagear Austregésilo Carrano nessa primeira edição?

Paulo Amarante: Austregésilo Carrano foi uma pessoa que deu a vida pela luta antimanicomial, pela reforma psiquiátrica. Foi vítima de violências e constrangimentos diversos em algumas instituições psiquiátricas e escreveu uma obra muito importante relatando suas passagens pelos hospícios. O livro, intitulado 'Cantos dos malditos', se tornou uma ferramenta de denúncia das práticas das instituições psiquiátricas e acabou inspirando a diretora Laís Bodansky para realizar o filme 'Bicho de 7 cabeças' – o filme mais premiado da filmografia brasileira – que levou para o grande público a realidade da psiquiatria brasileira. O livro, em si, é um importante trabalho cultural, literatura e denúncia ao mesmo tempo. A SID (Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural) tem como tradição homenagear nos seus editais de premiação pessoas de destaque do segmento cultural em que atua. Juntos, decidimos homenagear Austregésilo Carrano nesse primeiro edital. Falei com sua mãe e filha, que ficaram muito emocionadas com o reconhecimento.

Informe ENSP: Essa questão de trazer a diversidade cultural como forma de inclusão de pessoas com algum tipo de transtorno mental é um dos frutos da reforma psiquiátrica no país. Como anda esse processo atualmente? Em recente evento aqui na ENSP, na abertura do Curso de Especialização em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, o cineasta Helvécio Ratton disse que há um movimento pela volta dos manicômios. Isso está realmente em pauta?

Paulo Amarante: A luta é permanente. A defesa dos manicômios é e será feita sempre por parte dos proprietários de hospitais psiquiátricos, por parte dos setores acadêmicos conservadores, que vivem da doença e não da saúde mental, que vivem, de uma forma ou de outra, do que o professor Carlos Gentille de Melo denominava 'a indústria da loucura'. Muitos dos segmentos da universidade ligados à indústria farmacêutica também defendem a volta aos manicômios porque defendem a idéia de que o sofrimento mental é tão-somente um problema orgânico, pois assim eles vendem mais remédios ou ajudam a vender mais remédios. Por sorte, no mundo inteiro, muito particularmente nos EUA e no Brasil, estão surgindo movimentos fortes de denúncia desses setores acadêmicos com as fraudes nos protocolos de pesquisas, com a compra de artigos que favorecem a medicalização e assim por diante. Mas, sobretudo no Brasil, temos um movimento social forte de luta pela reforma psiquiátrica que garantirá o avanço. E, posso afirmar que, desta vez, non passarán! Mas, nunca é demais aproveitar para reivindicar a 'IV Conferência Nacional de Saúde Mental', para rearticularmos e revigorarmos nossas forças e estratégias.

Informe ENSP
Matéria: http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/noticia/index.php?id=16731

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Los Portadores de Sueños

Acredito no que diz a poetisa nicaraguense Gioconda Belli. Os portadores de sonhos estão ao nosso lado, e poucos os vêem, mas quem recebe deles o carinho, a atenção, a solidariedade e o pão que alimenta o corpo e o espírito vive intensamente as suas benfeitoras presenças.
Recebi este belo texto de uma amiga da Espanha e compartilho neste espaço.

Gilvan Almeida

Los Portadores de Sueños
Gioconda Belli
En todas las profecías
está escrita la destrucción del mundo.
Todas las profecías cuentan
que el hombre creará su propia destrucción.
Pero los siglos y la vida que siempre se renueva
engendraron también una generación de amadores
y soñadores;
Hombres y mujeres que no soñaron con la
destrucción del mundo,
sino con la construcción del mundo de las mariposas
y los ruiseñores.
Desde pequeños venían marcados por el amor.
Detrás de su apariencia cotidiana
guardaban la ternura y el sol de medianoche.
Sus madres los encontraban llorando
por un pájaro muerto
Y más tarde también los encontraron a muchos
muertos como pájaros.
Estos seres cohabitaron con mujeres traslúcidas
Y las dejaron preñadas de miel y de hijos reverdecidos
por un invierno de caricias.
Así fue como proliferaron en el mundo los portadores
de sueños, atacados ferozmente por los portadores de
profecías habladoras de catástrofes.
Los llamaron ilusos, románticos, pensadores de Utopías,
Dijeron que sus palabras eran viejas
_ y, en efecto, lo eran porque la memoria del paraíso
es antigua en el corazón del hombre_
los acumuladores de riqueza les temían
y lanzaban sus ejércitos contra ellos,
pero los portadores de sueños todas las noches
hacían el amor y seguía brotando su semilla del vientre de ellas
que no sólo portaban sueños sino que los multiplicaban
y los hacían correr y hablar.
De esta forma el mundo engendró de nuevo su vida
como también había engendrado a los que inventaron
la manera de apagar el sol.
Los portadores de sueños sobrevivieron a los climas gélidos,
pero en los climas cálidos casi parecían brotar por
generación espontánea.
Quizás las palmeras, los cielos azules, las lluvias torrenciales
tuvieron algo que ver con esto.
La verdad es que como laboriosas hormiguitas
estos especimenes no dejaban de soñar y de construir
hermosos mundos, mundos hermanos, de hombres y mujeres que se
llamaban compañeros, que se enseñaban unos a otros a leer, se consolaban
en las muertes, se curaban y cuidaban entre ellos, se querían,
se ayudaban en el arte de querer y en la defensa de la felicidad.
Eran felices en su mundo de azúcar y viento
y de todas partes venían a impregnarse de su aliento
y de sus claras miradas,
y hacia todas partes salían los que los habían conocido
portando sueños, soñando con profecías nuevas
que hablaban de tiempos de mariposas y ruiseñores,
en que el mundo no tendría que terminar en la hecatombe
y, por el contrario, los científicos diseñarían
fuentes, jardines, juguetes sorprendentes
para hacer más gozosa la felicidad del hombre.
Son peligrosos – imprimían las grandes rotativas.
Son peligrosos – decían los presidentes en sus discursos.
Son peligrosos – murmuraban los artífices de la guerra.
Hay que destruirlos – imprimían las grandes rotativas.
Hay que destruirlos – decían los presidentes en sus discursos.
Hay que destruirlos – murmuraban los artífices de la guerra .
Los portadores de sueños conocían su poder
y por eso no se extrañaban
y también sabían que la vida los había engendrado
para protegerse de la muerte que anuncian las profecías.
Y por eso defendían su vida aun con la muerte,
Y por eso cultivaban jardines de sueños,
y los exportaban con grandes lazos de colores,
Y los profetas de la oscuridad se pasaban noches y días enteros
vigilando los pasajes y los caminos,
Buscando estos peligrosos cargamentos
que nunca lograban atrapar,
porque el que no tiene ojos para soñar
no ve los sueños ni de día ni de noche.
Y en el mundo se ha desatado un gran trafico de sueños
que no pueden detener los traficantes de la muerte;
y por doquier hay paquetes con grandes lazos
que sólo esta nueva raza de hombres puede ver
Y la semilla de estos sueños no se puede detectar
porque va envuelta en rojos corazones
o en amplios vestidos de maternidad
donde piesecitos soñadores alborotan los vientres
que los cargan.
Dicen que la tierra después de parirlos
desencadenó un cielo de arcoiris
y sopló de fecundidad las raíces de los árboles.
Nosotros solo sabemos que los hemos visto ,
sabemos que la vida los engendró
para protegerse de la muerte
que anuncian las profecías.